O ensaio dos Zelenskys e a “popstatização” dos políticos

Quais os limites da autopromoção política? Alguém em um cargo público deve aproveitar toda e qualquer oportunidade de aparecer e dar luz para suas pautas?

A resposta é: NÃO. O limite para essa autopromoção deveria ser o respeito a dor do outro.

Antes de trazer minhas problematizações sobre o ensaio dos Zelenskys na Vogue americana, quero deixar bem claro que não vejo problema algum em políticos estarem em revistas de moda. Acho inclusive necessário, tendo em vista que muitas mulheres leem apenas esse tipo de publicação e, se queremos mais participação feminina na política, precisamos falar com mulheres onde elas estiverem dispostas a ler e ouvir.

Michelle Obama, Jill Biden, Theresa May e Margaret Thatcher estamparam as páginas da Vogue e não há dúvidas do benefício da publicação para os mandatos em que elas estavam envolvidas. Mas os contextos eram completamente diferentes de Olena Zelenska.

A primeira dama da Ucrânia aparece em uma capa no estilo editorial de moda usando a estética da guerra para chamar a atenção. A maquiagem propositalmente borrada não ajuda a disfarçar a artificialidade da cena.

A capa e o ensaio da revista Vogue escancara alguns problemas sérios da nossa sociedade.

1º – A espetacularização da tragédia humana.

O vídeo da produção do ensaio da Vogue com os Zelenskys só reforça o discurso de que eles estão gostando da guerra para se promover. A leveza e as risadas nas imagens interferem radicalmente no discurso de que o casal estaria preocupado e sofrendo com a guerra que aflige seu povo. O conflito armado virou um palco para que eles chegassem cada vez mais longe e ganhassem cada vez mais fama.

Essa não é a primeira vez que revistas de moda e seus renomados fotógrafos registram as guerras da humanidade com um caráter impactante e comovedor. Cecil Beaton e Lee Miller (que além de fotógrafa era modelo), renomados profissionais que trabalhavam para a Vogue, registraram fotos de guerra que viraram irônicas. Sempre com o argumento de “dar visibilidade à guerra”. Mas a realidade parece ser uma disputa pelo clique premiado, o like, a venda de exemplares: o lucro. E esse lucro levanta vários questionamentos éticos.

Lee Miller na banheira de Hitler em 1945. Foto do companheiro dela, David Scherman, produzida pelos dois após invadirem o apartamento do ditador, assim que a guerra acabou. Foram os primeiros a chegar no local.
Foto do campo de concentração de Buchenwald – Lee Miller
Cecil Beaton registrou um marinheiro costurando a bandeira num navio de guerra.

2º – A romantização da desgraça social

Quando se cria uma “estética bélica” que tem como objetivo comover e envolver as pessoas, romantiza-se o sofrimento vivido por quem está lá. Um casal bonito e atraente de mãos dadas no meio do caos de uma guerra para demonstrar união e companheirismo desvia a atenção do que realmente importa. Pessoas inocentes estão morrendo por causa de uma gente “poderosa”, orgulhosa e egocêntrica incapaz de negociar, ceder e acabar com a guerra.

Não é fofo, romântico, nem lindo que eles sigam juntos e apaixonados nessa situação em que vivem. Da mesma forma que não é “uma linda entrega de amor” pais deixarem de comer para alimentar seus filhos em países que sofrem com o aumento da fome.

Não existe romantismo na tragédia. Não tentem forçar isso.

Foto do editorial da Vogue com o presidente e a primeira-dama da Ucrânia.

3º – Limite entre ser político e popstar

Vivemos mais do que nunca a era dos mitos e heróis na política. Idolatramos nossos representantes como verdadeiros popstar. Pessoas choram, gritam, se emocionam e dão um jeito de conseguir aquela foto perfeita que vai ser postada para que todos os amigos e conhecidos saibam que ela esteve junta com aquele líder adorado pelo grupo dela. Esquecemos que na verdade eles estão naquele cargo para nos servir, nos representar. Somos nós, eleitores, os chefes deles.

Zelensky era ator antes de ser presidente. O que ele vai fazer depois do mandato? Não sabemos. Mas sabemos que a guerra com a Rússia colocou o atual líder da Ucrânia em um patamar de popstar. O mundo conhece Volodymyr e o considera um herói. Ele virou o símbolo da resistência contra Putin e tudo que a Rússia representa de ameaça ao capitalismo (lembra da guerra fria?).

E aqui eu não estou defendendo o presidente russo. O comportamento dele é indefensável. Só quero lembrar que Zelensky tem o seu papel na perpetuação da guerra e colocá-lo como um mártir resistente pode ser perigoso.

Tenhamos cautela ao converter líderes políticos em celebridades mundiais. Não deixemos que a humanidade esqueça o que realmente está em jogo.

Existe uma guerra há 5 meses impactando a vida de todos nós. E, principalmente, matando diariamente pessoas inocentes.

Em tempo, a Vogue poderia e deveria sim falar da guerra, mostrar o casal. Mas não precisava ser um editorial de moda. Há espaço dentro desse tipo de publicação para entrevistas mais profundas, artigos e reflexões sobre os acontecimentos políticos e os problemas sociais que enfrentamos. Na década de 1940 Simone de Beauvoir já fazia isso, na própria Vogue.

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