De Eva a Evita: as estratégias de imagem da primeira-dama argentina para virar ícone do povo

Maria Eva Duarte Peron é em exemplo de que uma mulher não precisa ter um cargo eletivo para ter um protagonismo político e de que a comunicação é um conjunto complexo de códigos passados pela linguagem oral e não verbal.

Foi para Buenos Aires em busca do sonho de ser famosa e passou por um intenso processo de transformação de imagem. As roupas de menina do interior deram espaço para uma vestimenta sensual e que faziam com que ela aparentasse ser mais velha.

Em pouco tempo foi de anônima a conhecida atriz e apresentadora de rádio. Com o objetivo de reforçar o novo status social veio o cabelo loiro e muito bem penteado. Sempre atenta às tendências e mostrando-se vanguardista.

Com 24 anos já era uma das atrizes mais bem pagas da Argentina e adorada pela população que a ouvia interpretar rainhas e heroínas nas rádionovelas. Sabendo disso, ela não hesitou em organizar comícios e manifestações pedindo a liberdade do General Juan Peron, preso enquanto ainda eram namorados.

Blazers e tailleurs passaram a ser usados trazendo a imagem de credibilidade e poder que ela precisava para falar com as multidões. Considerando que certas estampas trazem um ar romântico e ela precisava deixar claro que aquela movimentação não era (apenas) por amor, mas por acreditar que Perón era fundamental para defender os pobres trabalhadores argentinos vemos a opção do uso de cores lisas e escuras trazendo sobriedade e seriedade para a imagem dela.

Dedo em riste, cores sóbris e tom de voz firme e duro.

Gestos firmes e braços em riste serviam para trazer segurança e clamar a participação popular. A linguagem gestual de Eva foi tão marcante que virou pose para fotos e orientação para atrizes que vieram a interpretá-la nos filmes e musicais.

Os braços ergidos viraram um gesto marcante, sendo reproduzido nas interpretações de Evita.

A libertação do general deixou claro como ela era estratégica. Em uma época em que mulher não tinha direito a voto, não podia ser candidata e muito menos era ouvida no ambiente político de tomada de decisões vemos Eva surgir como protagonista da campanha eleitoral do, agora marido, Juan Perón.

Fazia falas calorosas sempre que o público era a povo mais pobre. No discurso oral usava a história de vida pobre no interior do país para sensibilizar os “descamisados”, como eram chamados os trabalhadores rurais e a população mais carente da Argentina, e aproximá-los do marido candidato a presidente.

Aqui vale uma observação de como a imagem de Perón também mudava nesse contexto. Nos comícios populares era comum vê-lo sem paletó e com as mangas da camisa arregaçadas, tirando o peso aristocrático do terno. Eva, nas idas ao interior, voltava a usar estampas, reforçando a imagem de mulher delicada e sensível que entendia as dores daquele povo.

A fala na linguagem que os mais carentes entendiam, o discurso sempre reforçando o passado pobre e as humilhações sociais, os gestos marcantes clamando o povo, fez com que ela fosse conhecida como “a interprete dos descamisados”. Novamente é importante lembrar o vanguardismo da presença dela. Considerando a total exclusão social das mulheres no processo eleitoral, é marcante que fotos de Evita fossem usadas em cartazes da campanha peronista, reforçando a importância da imagem dela para aproximação do candidato com população mais carente. Notem que a mesma estratégia de usar a imagem de um ator político para fortalecer a candidatura de outro foi usada na campanha de 2018 por alguns partidos brasileiros.

Após a eleição de Perón, Eva foi fundamental para garantir, em 1947, a aprovação da lei do voto feminino na Argentina, por exemplo. Também foi ela quem articulou a criação do Partido Peronista Feminino, do qual chegou a ser presidente.

Para transitar entre a classe política ela via cada vez mais a necessidade de usar roupas elegantes e sofisticadas. Porém, fazia questão de não se igualar a elite conservadora, vestindo-se de forma autêntica, sendo vanguardista da moda, trazendo cores e brilho. Ostentando o luxo de grifes como Christian Dior, que chegou a afirmar “Eu vesti apenas uma rainha: Eva Peron!”.

Trazer luxo às roupas sem usar cores, cortes e acessórios tradicionais naquela sociedade também foi uma decisão consciente e estratégica. A própria Eva dizia que se vestia assim para que “seus pobres”, ao vê-la deslumbrante, se sentissem mais ricos e se sentissem no direito de sonhar. Atraia a admiração e idolatração da classe mais baixa, que era quem lhe importava, e o julgamento e preconceito das mulheres de classes mais altas, que diziam que a vestimenta dela mostrava como Evita “não era uma delas”. A grande verdade é que ela nunca quis ser.

Quis ser reconhecida como a mulher que veio do povo e que lutava para que, aqueles com a mesma origem dela, pudessem alcançar um padrão de vida melhor. Até o apelido Evita era estratégico. Criado por ela mesma, surgiu para diferenciar a primeira-dama e a salvadora do povo pobre argentino. Apenas a alta sociedade a chamava de Senhora Eva Perón. Seu público-alvo se referia a ela como Santa Evita ou apenas Evita.

Em 1948, criou a Fundação Eva Perón, fundamental para fortalecer a imagem de cuidadora do povo. O dinheiro arrecadado a cada discurso e mobilização era usado na construção de hospitais, solidariedade social, distribuição de medicamentos, criação da Escola de Enfermeiras Evita Perón.

Fotos de uma primeira-dama trabalhando horas a fio no escritório da Fundação circulavam nos jornais e revistas, reforçando a imagem de que ela não descansava para garantir uma vida melhor para os “descamisados” dela. Além disso, ela estava presente nas entregas, abraçava e trazia para junto do palanque aqueles que seriam assistidos com a caridade dela.

Sabendo que seu protagonismo incomodava principalmente aos homens, Evita passou a reforçar em seus discursos orais que era apenas a esposa de Perón e estava ali para que ele brilhasse. Que sua única preocupação era cuidar do povo. Quando estavam em ambientes mais formais o coque baixo reforçava a imagem de esposa dedicada, tranquila e elegante. Os tailleurs de cores mais sóbrias também eram reservados para esses encontros, enquanto as cores vivas e estampas prevaleciam nas aparições públicas.

De forma estratégica e genial a jovem Eva, que faleceu aos 33 anos, construiu uma imagem icônica. Como bem disse Juan José Sebreli, um dos principais sociólogos da Argentina, “Perón não é o mito. Ele é a figura histórica. Ninguém se interessa profundamente por Perón hoje em dia, a não ser que seja um historiador. Mas, todos conhecem Evita”.

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